A força do hábito...

Existem alguns códigos da “boa educação” aos quais ficamos inteiramente condicionados.

Entre esses tais códigos condicionantes podemos citar: dizer “tchau, um beijo”, ao nos despedirmos de pessoas íntimas; dizer “tchau, bom final de semana”, “boa tarde” ou “boa noite”, quando nos despedimos; dizer “obrigada(o)”, quando temos algum motivo para agradecer, etc.

Acontece que às vezes respondemos a esses códigos sem que eles tenham sido acionados, ou então usamos a resposta trocada ao código que foi acionado.

            Quem, por exemplo, nunca disse: “outro”, enquanto se despedia, esperando que a pessoa tivesse dito: “um beijo”, sem ela ter dito?

            Quem, por exemplo, nunca respondeu a um “boa noite” com “outro”, esperando que a pessoa tivesse dito “um beijo”?

            Quem, por exemplo, nunca disse “tchau, um beijo” a um desconhecido e imediatamente se perguntou: “por que eu disse isso?” ?

            Quem é que nunca disse “de nada” sem que o outro tivesse agradecido?

            A gente sempre se pergunta o que fazer nessas situações, não é mesmo?

Pois é, eu acho que ...

é melhor não tentarmos consertar o vacilo e considerarmos o fato de que o outro provavelmente também  já pagou esse mico!

 



Escrito por Tatiana às 20h48
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Lembranças ou invenções ...

Uma coisa que me chamou atenção há algum tempo: é que às vezes misturamos às nossas lembranças algumas imagens que nós mesmos produzimos para preenchermos lacunas em nossa memória.

Na medida em que crescemos, por exemplo, estamos sempre ouvindo histórias ao nosso respeito, coisas que fizemos quando menores. Observei que ao ouvir sistematicamente as mesmas histórias eu, desde pequena, visualizava internamente o que estava sendo contado, de forma que hoje eu já não posso separar o que é lembrança realmente, do que eu criei na minha imaginação.

As pessoas mais próximas a mim sempre me contaram como eu tinha nojo de pegar em coisas "melequentas". Um episódio que sempre é lembrado para ilustrar este fato foi um dia em que eu estava brincando na rua e pisei em uma banana, provocando o maior escândalo por causa disso. A História não tem muitos mistérios mais foi contada diversas vezes (com mais detalhes, que não merecem ser mencionados). Eu tenho nitidamente a visão do ocorrido, sei como eu estava vestida (na verdade só de calcinha), o meu tamanho, a rua em que isso aconteceu, a casa em frente da qual eu me encontrava, etc. Entretanto, a imagem que eu tenho de mim mesma é a que aparece em uma foto minha, a rua que eu vejo nessa imagem eu nunca morei e não se parece com nenhum lugar onde eu passei minha infância, a casa a qual me refiro é idêntica a uma casa que a minha avó morou quando eu já era bem grandinha, e por aí vai.

Conclusão, eu acho que eu inventei essas imagens e as repeti todas as vezes que me contaram essa mesma história. Isso aconteceu com muitas outras informações que me deram ao meu respeito, como o dia em que parei de usar chupeta, os vexames que fiz minha mãe passar com perguntas politicamente incorretas sobre ... (deixa pra lá!).

Enfim, será que podemos distinguir nossas memórias de infância de nossas fantasias sobre nossa infância?

O que mais me espanta é que esse hábito de preencher os vazios da memória se repete até hoje. E eu acho que as pessoas, de uma forma geral, quando contam alguma coisa fazem isso involuntariamente, o que não faz dessas fantasias propriamente uma mentira.

Eu conheci uma jornalista chamada Érica Guimarães em Paris e nos tornamos amigas. Nós duas estávamos viajando pela Europa e tirando muitas fotos. Eu sempre pedia pra ela bater as minhas fotos para que eu pudesse aparecer e ela me convenceu que seria mais importante registrarmos nosso olhar pessoal sobre os lugares, e não provar que estivemos lá. Quando voltei da viagem mostrei minhas fotos pra muitos parentes e amigos e pra todos eles chamava atenção o fato de eu ter tirado fotos lindíssimas e não aparecer em quase nenhuma. Eu passei a explicar sistematicamente que "é mais importante registrarmos nosso olhar pessoal sobre os lugares do que provar que estivemos lá", como a Érica havia sugerido.

Recentemente reencontrei a Érica em São Paulo e ficamos relembrando a viagem, rindo das aventuras que vivemos juntas pela Europa. No meio da conversa eu lembrei o papo que tivemos sobre os japoneses, que tiram milhões de fotos deles mesmos, em todos os lugares, rimos bastante. Lembrei também (equivocadamente) de ter falado pra ela que seria melhor tirarmos fotos dos lugares sem aparecermos, para registrarmos nosso olhar sobre o lugar. Houve um silêncio. A Érica disse: "Tati, fui eu quem te falei isso, e não você!".

Pode parecer incrível, mas naquele momento me dei conta que eu havia incorporado aquela fala como se, no nosso diálogo sobre fotos, eu tivesse dito o que eu repeti milhões de vezes para explicar porque eu não aparecia nas fotos. Na mesma hora em que ela se disse autora da frase, eu recuperei a lembrança do que realmente tinha acontecido e demos mais risadas.

Espero que essas não sejam experiências exclusivamente minhas, e que não seja necessário que eu recorra a um especialista, analista, ou a qualquer outro "ista". Também não acho que seja problema de idade, na verdade ...

Eu acho que às vezes preenchemos nossas lembranças com imagens e falas que nós mesmos criamos.



Escrito por Tatiana às 12h28
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